Testemunhos de alunos

Ângela Cortez

“O projeto Arco Maior (...) não é mais uma escola típica, que tem os seus planos de estudo e metodologias prévia e totalmente desenhados e onde o principal ofício dos professores e educadores é aplicar esses planos. Alterou a minha vida de maneira positiva, é um projeto bem constituído, dando certas oportunidades que qualquer outra escola não dá. Aprendi que com esforço, dedicação e motivação tudo se consegue. Deixei de faltar, que era o maior problema, de resto a minha postura e o comportamento nunca prejudicaram o meu desempenho. Aprendi também diversas coisas de forma fácil, coisa que noutra escola não acontecia. Pontos fracos nesta aprendizagem não existem no meu ponto de vista. Os pontos fortes são a maneira de como se pode aprender sem ser preciso tanto esforço. Poderia ter sido mais pontual desde o inicio do ano, facilitava muito mais as coisas. Os obstáculos que tive de superar foram a pontualidade e a assiduidade. Aprendi a cozinhar, a jardinar e a ser mais autónoma, deu-me mais incentivo e vontade de levar tudo da maneira mais correta.”

Igor Lopes

“O Arco Maior surge com o intuito de oferecer uma resposta que garanta a integração escolar, profissional e social, como derradeira oportunidade para os jovens que abandonaram a escola e que se encontram fora de qualquer resposta educativa. Tem como objetivos: proporcionar uma alternativa educativa capaz de motivar os jovens que abandonaram a escola sem completar o 6º e o 9º ano, a constituírem novos projetos para as suas vidas; facilitar o acesso à escola, à formação profissional e ao emprego, retirando estes jovens da marginalidade. Antes de vir cá parar tinha mau comportamento e faltava muito . Este projeto alterou a minha vida devido aos professores serem tão dedicados aos alunos. Aprendi que ao ter bons professores e um horário razoável, corre tudo muito melhor. Desenvolvi um gosto pela cozinha devido à ajuda do professor que é muito dedicado também. Os pontos fortes desta aprendizagem é que um dia mais tarde talvez possa vir a arranjar trabalho, ajudou nos a ter mais vontade de fazer as tarefas com as visitas de estudo e a completar o 9º ano; pontos fracos não há. Pessoalmente, podia ter respeitado mais o horário de entrada, porque chego muito atrasado. Durante este ano e meio tive de superar a vontade de não vir para a escola e também a falta de pontualidade. Antes de vir para o Arco não gostava de ir às aulas, fazia asneiras, maltratava os professores. Quando entrei no Arco as coisas mudaram, a vontade de fazer as tarefas, a assiduidade tudo ficou diferente. A vontade era maior porque nos motivam muito mais do que numa escola normal.”

José Sousa

“Para começar, não vou para já falar sobre o Arco…vou primeiro explicar-vos um pouco o porquê de ter vindo parar a este projeto. Eu era um rapaz muito insurreto e faltava muito às aulas, cheguei a reprovar 4 anos seguidos no 8º ano, e tive outros problemas na minha vida…familiares como pessoais, meti-me em algumas coisas ilegais que me levaram a penas dos tribunais e a uma passagem por 2 instituições, um lar de juventude, e uma comunidade terapêutica [ART]. O projeto Arco Maior é uma escola diferente, com o intuito de fazer os jovens ingressar na escola. Foi aqui que defini parte de muitos objetivos da minha vida…mas relativamente ao meu objetivo, pretendo acabar o 9º ano e ir trabalhar.Ter vindo para este projeto mudou muito a minha vida, em termos de responsabilidade e mudança de atitude; alguns exemplos: hoje em dia não falto às aulas, nem tenho mau aproveitamento, não estou um santo, mas melhorei muito. Aprendi muita coisa neste projeto, mas, acima de tudo, aprendi a ouvir! Também me ajudou na minha mudança de vida porque para estar cá deixei de fazer coisas menos boas como faltar à escola, não ter uma ocupação; basicamente evoluí bastante no trabalho manual, faço coisas simples como varrer um chão ou não cuspir para o chão. Os pontos fortes desta aprendizagem para mim são a oportunidade de, com sorte, arranjar um emprego ou continuar os estudos com novas oportunidades. Os pontos fracos? Para mim, se me perguntassem no ano passado, diria milhares deles, mas, agora, como percebi que isto tudo é para me ajudar, deixei isso de lado…Para mim, sou sincero, não há pontos fracos. Também é verdade que há coisas que podia ter feito melhor, não ser tão “respondão” nem chegar atrasado algumas vezes ou entrar em brigas, que tive com alguns colegas. Mas isto refere-se mais ao ano passado, porque, para mim e para muita gente, eu este ano não tenho nada a ver com o ano passado. Tive alguns obstáculos pelo caminho tais como, pouco controlo emocional e fraca assiduidade. A nível profissional este projeto pode-me ter dado o meu futuro ganha-pão, mas ainda não sei ao certo mesmo o que vou fazer e quando será…mas prevê-se que já no fim do projeto tenha emprego. A nível pessoal ajudou-me muito nas relações familiares com a minha mãe. Fez-me uma pessoa melhor, mais trabalhadora e honesta. Para finalizar este projeto mudou mesmo a minha vida, hoje em dia quase não me conheço, tanto na maneira como falo e também porque estou um pouco melhor no aspeto.”

Inês Leorne

“Olá.

As coisas têm mudado imenso, sinto mesmo a minha vida a virar de “capítulo”, é a sensação mais estranha que senti.

Já passei por várias experiências na vida, os professores têm conhecimento de algumas coisas, mas o que eu senti noutra fase foi diferente, cresci demasiado rápido, a vida obrigou! Agora sinto-me mais preparada para as circunstâncias que a vida nos vai dando, tenho muito mais ferramentas e assim fica tudo mais fácil.

É certo que tive responsabilidades muito cedo, muitas preocupações por causa da minha família, mas agora as coisas mudaram, não me sinto tão desesperada, nem sequer me preocupo tanto com os “outros”, não é por ser egoísta, percebi que primeiro eu tenho de estar bem para ajudar quem eu quero e quem precisa! Continua a ser difícil não estar tão presente [junto da família] como era antes, fico triste, mas acho que fico mais triste estar perto e ver o quão ingratos eles são, prefiro andar longe e continuar a ajudar no que posso.

Sinto-me feliz e só quero que me deixem ser feliz enquanto dura! Não ter de depender de ninguém é a melhor coisa do mundo. Passar fome, não ter roupa para vestir, sapatilhas, não ter água e luz em casa, é complicado, ver as pessoas que mais queremos ver bem estarem mal é muito revoltante e mais ainda não poder fazer nada porque nem sempre há forças, nem oportunidades. Descer é muito mais fácil que subir.

Hoje tenho o 9º ano e emprego graças ao Arco Maior, nunca desistiram de mim, nem nunca os vi desistir de ninguém! Não posso pedir mais nada, nem me queixar de nada, tenho aqui a minha chance e não a largarei por nada, abracei-me com tanta força a isto que já não me imagina sem. (...).

Dou o meu melhor, mas tenho consciência de que o meu melhor nem sempre é suficiente. (...) Não tenho mais a pedir, só tenho agradecer a vida estar a ser tão generosa para mim.

Mil beijos.”

(uma carta de fevereiro de 2016)”

Alfredo Viana

“Sou o Fred, tenho 18 anos e, durante a minha vida toda, escolhi o caminho errado. Sempre fui um rapaz inteligente, sempre tive muita facilidade em aprender, mas seguia sempre as pessoas erradas. Com altos e baixos na minha vida, nunca estava bem mentalmente, até ao dia que surgiu o Arco Maior. Foi uma sensação fantástica!

Senti-me integrado, senti que ninguém me via de maneira diferente.

Aqui no Arco Maior, posso mostrar a pessoa que sou e sei que ninguém me vai apontar o dedo. No Arco, aprendi muita coisa, melhorei a minha escrita e a minha leitura. Penso que cresci como pessoa e cada dia que passa cresço mais ainda.

No Arco, só tive bons momentos, aprendemos muito com os professores, divertimo-nos com eles e também desabafamos.

A minha ambição é concluir aqui o nono ano e o meu sonho é chegar ao décimo segundo ano para melhorar o meu futuro.

Graças ao projeto Arco Maior me ter aberto as portas e me ter dado muito apoio, é que eu irei alcançar os meus objetivos.”

Rafael Grilo

“Chamo-me Rafael Grilo, tenho 18 anos e vivo no Porto. Apesar de ainda ser novo, a vida já me ensinou muitas coisas. Comecei mal o meu percurso, mas, como dizem, a vida dá muitas voltas e a minha está a dar uma de 180º graus.

Depois de frequentar o ensino regular, em que não tive sucesso, aos 17 anos ouvi falar do Projeto Arco Maior e fui procurar uma mudança para mim. Dentro do Arco Maior, tive a ajuda dos meus professores que me apoiaram em tudo.

Quero agarrar-me à ideia de ter um futuro sorridente, mas isso só depende de mim. Estou motivado para iniciar uma nova fase da minha existência.

A vida ensinou-me que, mesmo estando triste, tenho de sorrir, e apesar de tudo, devemos conservar os nossos sonhos, porque já dizia o poeta “o sonho comanda a vida”. E eu estou a ser comandado pelo meu sonho. No Arco, descobri a minha paixão pela cozinha. Gosto muito do que faço. A cozinha é mesmo “a minha praia”! Tornou-se uma paixão.

Agora, estou ciente que é isto que quero para o meu futuro.

Destaco como minhas qualidades, a dedicação, a pontualidade e a ambição de aprofundar os meus conhecimentos. Quero ir mais além na minha aprendizagem. Gosto de ter oportunidades, de aprender com as pessoas mais experientes, descobrir novas técnicas, novos ingredientes e, sobretudo, inovar.

Tenho a ambição de tirar o curso de Técnico de Cozinha e Pastelaria. Depois de o concluir e obter experiência suficiente, gostaria de abrir o meu próprio restaurante, um Restaurante Gastronómico, onde pudesse vir a mostrar a minha cozinha e os meus sabores, associando-os à minha zona de referência, a Ribeira do Porto.

E aqui estou eu, sem truques, a tentar lutar contra as minhas angústias, a arrumar as gavetas que estão desarrumadas, e a fechá-las, porque fazem parte do meu passado, mas que não pretendo transportá-las para o meu futuro.

Este é o meu autorretrato. Com defeitos, mas com a máxima honestidade.”

Marta Deodato

“Olá! Eu sou a Marta do Arco 3. Vim falar um bocadinho da minha experiência aqui no Arco.

Devo começar por referir que foi uma excelente oportunidade que eu tive. Foi sem dúvida uma oportunidade que jamais eu quereria perder. Quando soube da existência desta escola, fiquei super feliz, pois finalmente tinha uma escola à minha altura, e poderia entrar nela, com sorte. Eram muitos alunos para entrar mas eu nunca perdi a esperança, foi sempre o que a minha mãe me ensinou. Ligava vezes sem conta para a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) para saber se fui uma das selecionadas, mas eles nada sabiam sobre quem teria tido essa sorte. Então um dia cheguei a casa depois de um dia cansativo, de andar sempre de um lado para o outro, e deparo-me com a notícia de que tinham telefonado e que fui escolhida. Fiquei com uma mistura de emoções... Começando pelo facto de estar super ansiosa, e feliz, claro. Estava em pulgas para o dia 3 de Outubro, o dia em que ia conhecer os meus professores e a minha "segunda família", com quem iria conviver todos os dias.

O primeiro dia foi espetacular! Não há outra palavra que descreva o meu primeiro dia na minha escolinha, pela qual estava ansiosa. Nunca achei que aquilo iria ser uma "seca", mas sim que tinha de desfrutar ao máxima da minha oportunidade, por isso, sinto que sou super sortuda, falando também no facto de ter um filho maravilhoso, com 10 meses, cujo nome é Tomás. Se calhar se tivesse esta oportunidade antes dele nascer não agarrava tanto como hoje a agarro, pois tenho focos de vida, o meu futuro que irá gerir também o futuro dele.

Com a continuação do tempo, adorei a escola como se fosse o primeiro dia, a cada dia que passava adorava cada vez mais. Conheci várias pessoas, uma delas que sem margem de dúvidas quero levar para toda a minha vida, a minha amiga Tatiana! E também os meus professores, claro!

Conheci pessoas espetaculares, que não duvidaram de mim e fizeram-me acreditar que tudo é possível.

Adoro o Professor Joaquim Azevedo. É um senhor com um coração enorme, sempre preocupado com o bem estar dos alunos, professores, etc... Sempre que o vejo não há nada como lhe dar um abraço, tentando, tanto como em gestos, como estudando, retribuir o bem que ele nos faz.

Sou sempre assídua e pontual, é assim que funciona, como se estivesse num trabalho, tudo tem que correr conforme é. E também dou sempre, um abraço a minha querida professora Ana, e à professora Maria. A professora Maria costuma dizer que é a "tia escola", também acho que seja verdade. Sempre prontas para nos ajudar e nos confortar quando precisamos, e mesmo quando não precisamos.

Obrigado, de coração, por esta oportunidade e tudo o que têm feito por mim e pelos meus colegas.

Envio também o meu blog que fala sobre o antes e depois da nossa escola, que eu fiz.

- nossoarco3.blogspot.pt

Mil beijinhos e obrigado!!”

Hugo Brandão

“Olá, sou Hugo Brandão, tenho 24 anos e vivo no Porto (Lordelo do Ouro).

Aos 14 anos, deixei a escola sem concluir o 6º ano de escolaridade. Não gostava da escola, não conseguia estar concentrado mais de noventa minutos numa aula. Estive muitas vezes suspenso, mas nunca conseguia mudar a minha postura. Entre os 15 e os 18 anos, frequentei vários cursos profissionais sem os concluir, pois faltava muito às aulas. Aos 18 anos após estar envolvido num processo judicial, foi-me sugerido que entrasse no projecto “Arco Maior”

Falando agora do meu percurso aqui no Arco Maior, já se passaram mais ou menos 15 meses. Ao longo de todo este tempo, aprendi muito, pois quando entrei aqui, mal conseguia ter uma boa conversa com os professores e alunos. Agora tudo é diferente porque já evolui muito desde que vim para aqui. Nesta família, partilhei bons momentos, momentos que eu não vou esquecer nunca mais. Foi a melhor opção na minha formação. No Arco Maior vive-se muito em conjunto e, como digo sempre, “aqui somos uma família”, tratámo-nos todos bem, aqui lidamos com todo o tipo de pessoas e é por causa disso que ainda somos mais chegados. No Arco aprendi a ter muito mais paciência para as pessoas e a respeitá-las. Gosto de todos aqui e há muitas pessoas que quero acompanhar para o resto da minha vida.

Estou na reta final do meu percurso e tenho muito pena porque fiz aqui 6º ano e estou quase a terminar o 9º ano. Mas por outro lado, vou poder arranjar trabalho e era por isso que eu queria poder ter o 9º ano, o que vai mudar tudo na minha vida. Nunca pensei ter a capacidade de poder fazer o que tenho vindo a fazer.

Em relação aos professores, adorei conhecê-los a todos, contudo três marcaramme para toda a vida. Quero dizer que gosto de todos os professores e a eles quero agradecer por tudo o que fizeram por mim. Sei que não sou muito de esperar, mas estes professores fizeram-me ver que não vivo sozinho neste mundo e que tenho de respeitar todos.

Falando dos alunos do Arco Maior, gostei de conviver com todos e sei que tenho amigos aqui para toda a minha vida. Alguns são já da minha família, fazem parte de tudo. Todos temos feitios e maneiras de ser diferentes, daí ser muito complicado para os professores. Eu sentia muitas dificuldades em respeitar alguém, no entanto, hoje, sentome em frente a um professor e sei ter uma conversa.

Em relação ao futuro, quero muitas coisas para mim, ambiciono conhecer outros países, ter uma casa, filhos, uma família. Quero poder fazer vida com a Daniela e sem o curso nada disto podia acontecer. Sou muito alegre e gosto de estar sempre ocupado.

Agora vou só falar um pouco de uma pessoa que é a mais importante para mim aqui no curso. Você para mim é um segundo Pai. Só você para poder mudar as minhas ideias. Sem você, eu não estava aqui hoje a escrever esta carta. A você tenho de agradecer tudo que está a fazer por mim mesmo. Um grande abraço, Antero Afonso.”

Júlio Cunha

“Como me estou a dar no Arco Maior.

Quando entrei para este projeto não fazia ideia do que isto era, só sabia que era um projeto recente, e que era a minha última oportunidade para terminar o meu 9ºano.

Sabia que só vinham para aqui pessoas que não tinham dado nada no ensino regular, pessoas problemáticas, pessoas que ninguém queria aceitar numa escola normal, mas isso não me preocupou, porque se eu vim parar aqui é porque também não era nenhum “ santo” e nós somos todos iguais.

Somos todos assim, porque nenhum de nós que está aqui teve uma vida fácil, nenhum teve a vida que quis, nenhum teve tudo o que quis, vimos todos de bairros, de zonas problemáticas e somos assim porque a vida nos ensinou a ser assim.

Mas aqui dentro somos todos iguais, temos todos os mesmos direitos, temos sempre as portas abertas e acima de tudo temos professores impecáveis que estão sempre prontos a ajudar em tudo, não só dentro da escola, como fora da escola, eles estão sempre preocupados connosco.

Aqui o ensino é mais virado para a parte prática, temos disciplinas parecidas com as do ensino regular, só que aplicamos na prática o que aprendemos nas aulas, para tudo se tornar mais fácil e interessante. Se nos formos a ver no ensino regular, a única coisa que interessa é a teoria, aqui a prática é mais importante, aprendemos com todos os sentidos, para aplicar no dia-a-dia, coisas que vamos levar para a vida.

E temos cá dentro os nossos segundos pais, o professor Antero e a professora Isabel, esses sim estão sempre prontos para tudo, e tenho muito que lhes agradecer por serem as pessoas que são para nós e por nos ajudarem tanto. Os colegas aqui dentro são impecáveis e também estão sempre prontos para ajudar.

E como esta foi a última oportunidade para eu tirar o 9ºano, eu estou a aproveitar ao máximo e já estou quase a terminar o curso, mas quando sair daqui vou ter pena de ir embora.”