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 Qual é o modelo pedagógico-educativo do Arco Maior?  

O Arco Maior, repetimos, não é uma escola, é uma dinâmica socioeducativa que tem um carácter transitório, que serve de apoio à reintegração escolar e social dos jovens, com uma evidente marca escolar, mas devidamente renovada, flexível, personalizada e inovadora.

O ethos deste projeto é o amor incondicional, uma dádiva contínua da parte dos adultos de referência, sobretudo dos professores, permanentemente geradora de inovação e oportunidades de desenvolvimento pessoal, num ambiente marcado pela expectativa sempre positiva face a cada jovem. Esta relação de amor é quebrada apenas, ainda por amor, quando os jovens passam uma linha vermelha, previamente bem debatida e esclarecida, que consiste na agressão física ou verbal, na violência e destruição do património.

De facto, aquilo que nos mobiliza é o amor, pois só o amor redime e é capaz de trazer de volta a paz e o saber viver juntos, duas realidades que estas vidas muito difíceis, em boa parte desorientadas e até perdidas, sem retaguardas familiares estáveis e positivas, não conquistam facilmente. Queremos que cada um aceda, por si mesmo, com o nosso apoio permanente, nunca desistindo, à sua beleza interior, pois só aí reside a coragem para lutar por um novo projeto de vida.

A ternura é o que melhor caracteriza os gestos dos que trabalham no Arco Maior (e é assim, por esses mesmos gestos, que os jovens caracterizam o Arco Maior junto dos media). A ternura nada tem de invertebrado, ela repousa sobre muita firmeza, muita exigência pessoal e muito rigor profissional no trabalho que se faz, em cada dia. Dias estes que se sabe como começam e nunca se sabe como decorrem e acabam. Tudo pode explodir de um momento para o outro e é preciso recuo, paz, capacidade para ousar recriar e dar uma nova oportunidade para recomeçar, uma vez realizado o devido trabalho de reflexão e análise das falhas. Tudo tem de ser continuamente reinventado e adaptado, constituindo esse o maior desafio aos professores, muitos deles apenas “treinados” para uma leccionação tradicional, previsível e rotineira.

O currículo tradicional que o ME nos “obriga” a cumprir é transformado num percurso personalizado, com uma certa quantidade de horas que cada um se compromete a realizar. Como, em geral, este compromisso é assegurado com muito absentismo e, por isso, com muita irregularidade, acontece que, no Arco Maior 1, as 475 horas (6º ano) e as 950 horas de trabalho (9º ano) tanto podem ser realizadas num só ano letivo, como em três. E, por vezes, só o sabemos agora, a persistência até o terceiro ano torna-se decisiva para que em algumas vidas ocorra uma grande volta!

A certificação escolar “prometida”, no termo de um percurso educativo, funciona para os jovens como um atrativo mobilizador, um “produto imediato e com valor de mercado”, pois a obtenção do 9º ano de escolaridade, mesmo que precedida da conquista do 6º ano (1), representa o acesso a empregos formais e a outros instrumentos básicos de inclusão social (como carta de condução, etc.).

Na realidade, os jovens como que “contratualizam” um conjunto de horas de trabalho educativo escolar, ao longo dos meses e procuram cumprir esse contrato, cabendo aos adultos aproveitar esse tempo precioso para conquistar a sua atenção, fomentar o desenvolvimento de importantes saberes e competências e extrair deles todo o potencial de desenvolvimento que os habita, a cada um (e em cada um à sua maneira).

As oficinas de Restauro, Restauração/Cozinha, Artes e Ofícios, TIC-Multimédia, Educação Musical e Jardinagem constituem alicerces importantes tanto para se desenvolverem aprendizagens significativas e para se adquirirem competências relevantes, como para cada um se re-encontrar consigo mesmo. Este re-encontro, apoiado pelos técnicos-adultos de referência no Arco e fora dele, se necessário (2), está pleno de potencialidades e é nele que se poderão ancorar novos projetos de vida. Por isso, tem de haver um lugar prioritário à construção de um percurso “escolar” pessoal, em busca desse interior, que não pode nunca ser menosprezado em nome, por exemplo, de uma carga horária e de um conteúdo disciplinar que é suposto ser aprendido naquele dia e naquela sequência exata.

Quantas vezes a Cozinha/Restauração e a confecção diária do almoço, que quotidianamente se come em comum, numa mesma sala, são os lugares nucleares em torno dos quais rodam as aprendizagens principais do dia.

Iniciámos a construção de vários projetos multidisciplinares e integradores de saberes e competências, em que vários professores cooperam na leccionação com um grupo de alunos (por vezes com todos eles), mas ainda não adquirimos a experiência suficiente para nos tornarmos peritos neste modo de ensinar e aprender, que reconhecemos estar cheio de virtualidades.

Em termos pedagógicos, estamos “condenados à inventividade” (Rakovitch, 2015), uma vez que a cada momento se têm de recriar programações, deixar cair propostas já iniciadas, lançar reptos re-estruturadores de caminhos que já não vão ter saída, escapar a bloqueios repentinos e ultrapassar contínuos descontrolos emocionais.

A equipa pedagógica de cada Arco Maior vai aprendendo a gerir os “percursos de personalização” e de crescente autonomia pessoal através de (i) uma reflexão conjunta e semanal, (ii) do recurso a debates entre todos os docentes dos vários Arcos, (iii) do apoio dos “documentos fundadores” e (iv) de uma permanente disponibilidade para nos sentarmos e refletirmos sobre o que se acabou de passar e nos surpreendeu. Trata-se de uma co-construção, que requer muita disponibilidade dos docentes para aprenderem, o que nem sempre é fácil, pois aos professores sempre lhes disseram que eles sabiam tudo e que deviam era ensinar os outros...

O clima é pois, de grande liberdade e de muita responsabilidade. Este projeto exige um grande investimento em inteligência pedagógica e didática, pois os caminhos que se é chamado a percorrer são bem diferentes dos que dominam o exercício profissional dos professores.

Nota: por vezes somos contactados por professores reformados e por técnicos jovens, de várias áreas, disponibilizando-se a trabalhar connosco. É bom sabermos isso. Todavia, a nossa resposta é quase sempre negativa. Primeiro, porque temos de trabalhar com os docentes que o ME nos afeta. Segundo, porque a UCP e o IEFP nos dão os apoios técnicos ao nível da psicologia e jardinagem e cozinha. Terceiro, porque o pior que pode suceder a estes projetos é caírem na tentação de que basta terem pessoas muito disponíveis para estar com os jovens, que o resto vem por acréscimo. Este trabalho é mesmo muito duro, as ilusões desvanecem-se depressa e é compreensível que temos de minimizar os riscos.

(1) Muitos dos jovens que recebemos para realizarem connosco o 9º ano, não têm sequer o 6º ano realizado.

(2) Por exemplo, recorremos a consultas de psicologia da Universidade Católica, no Porto.

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